Quando a noite chora…

“A vertigem não é o medo de cair, é a voz do vazio embaixo de nós, é a atração pela queda, é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza.” O Andarilho da Noite percorria seus olhos protuberantes pelas nobres páginas de Milan Kundera, guarnecendo seu espírito cinzento para afastar seus demônios durante pelo menos alguns momentos. Esses males inerentes, após seu renascimento para a vida noturna, ao invés de apenas sussurrarem obscenidades em seus cancerosos ouvidos, agora cavavam túneis em direção ao interior de sua alma, adornando-a com nódoas profundas e pesadas. Essas máculas eram como a cruz de um mártir: lembravam-no de seu fadário, pesavam em seus ombros, seduziam-no com o desejoso leito que se encontrava a seus pés e, ao mesmo tempo, incentivavam-no a seguir em frente com a esperança vã de uma dádiva no fim do caminho. É evidente que, para sua raça, carregar a cruz do martírio era uma sina eterna; ao contrário dos mortais, que sentiam o peso nas costas durante apenas alguns anos de suas vidas e recebiam, na conclusão de seu sacrifício, o alívio da crucificação e a remissão de seus pecados. Para os Amaldiçoados, entretanto, isso era intocável. Não, nada de final feliz. Um fim misericordioso para algum de seus Irmãos significava uma tentativa de se bronzear, ou ser empalado por uma estaca e jogado numa fogueira, como na época da Inquisição. Mas poucos tinham coragem para tanto.
E o Andarilho da Noite não era um deles.
Era um fraco que desejava saber ser forte para sobrepujar sua debilitação, elevando-se acima dos outros a um patamar tão alto que a vertigem (o desejo de cair) pudesse entorpecer-lhe até o espírito. Sim, ele apreciava o conteúdo daquela taça: sorver sua fraqueza em goles frugais embriagava tão lentamente quanto a queda graciosa de uma pluma num ritmo espiralado em direção ao fundo sequioso de um abismo. Imaginava, então, que de tanto fraquejar, algum dia essa taça houvesse de se esgotar por completo, só restando à mostra o resquício de sua força, não importava quão diminuta ela fosse.
Deixou suas reflexões e lembrou-se das horas. Vinte e duas e quinze. De sobressalto, fechou o livro e o pôs em seu devido lugar. Poderia terminar sua leitura mais tarde, mas agora precisava ir. Utilizando seu dom de obscurecimento, saiu da biblioteca da mesma forma que entrou, escondendo-se dentro das sombras e arrombando a porta com uma gazua. Fechou-a lentamente atrás de si, e retirou-se pela lateral do prédio, onde havia um jardim banhado pelas trevas. Ao chegar à calçada, fitou o reflexo de sua face purulenta no vidro de um automóvel. Pela milésima vez, arrependeu-se de tê-lo feito. Contou até dez, e ativou novamente seu dom. Agora sua visão era de um jovem cabeludo e atraente vestindo uma camisa de flanela e jeans rasgados, como um fã de Kurt Cobain. Pelo menos por enquanto, sua angústia se tornou mais leve.
E, assim, o Andarilho iniciou sua caminhada.
Com um pouco de sorte, pensou, talvez chegasse a tempo de vê-la retornando da faculdade. Desde que a observara pela primeira vez, há alguns anos atrás, quando ainda era mortal, o Andarilho sentia uma sufocante atração pela moça, embora que não dispusesse da motivação necessária para se aproximar. Agora que havia renascido para as trevas como um membro da família dos vampiros bestiais, sua atração não diminuíra, mas sua motivação para encontrá-la havia desmoronado como um castelo de areia. A tal moça era uma jovem típica, com vários amigos e amigas à sua volta e com um hábito previsível de freqüentar casas noturnas aos finais de semana e voltar para o lar cambaleando. Fumava e cheirava algo de vez em quando, é verdade, mas cada um com seu pecado. O que realmente importava para o Andarilho era a luz pessoal que essa moça emanava. O universo abria-se em seu sorriso, as lágrimas tornavam-se diamantes com sua mínima presença e a cruz não parecia tão pesada ao sonhar com seus braços. Ela era a fonte de sua juventude. A ponte que atravessava seu abismo. O prazer que aliviava sua dor. A crucificação.
Voltou a si, e percebeu que, pelo número de jovens pelas rua, as aulas já haviam terminado. Ela estava por perto. Muito perto. Parou a alguns metros de sua casa, na mesma posição vigilante de sempre. Havia muitas árvores naquelas ruas, e elas escureciam o ambiente de tal forma que a luz dos postes parecia sufocar-se. Com seu dom, o Andarilho permanecia estagnado e obscurecido sem ser importunado por ninguém.
As trevas eram as únicas coisas entre os dois.
Em seu ponto, o Andarilho observava a janela de sua musa. Ela, sempre solitária (ele não conseguia imaginar por quê), ao chegar em casa, reservara o último momento antes do sono para se debruçar no parapeito, fumando um eventual cigarro. Olhava para as estrelas, para os carros anônimos que vagavam pelas ruas, para as luzes artificiais e hipnóticas dos televisores das casas vizinhas e para as nuvens cinzentas que não traziam nem chuva, nem céu limpo.
Não olhou para as sombras. Talvez porque vivesse sob elas.
Nisso, um pequeno pedaço de brasa deixava seus lábios e ganhava o solo asfaltado. Fechava a janela mas mantinha a luz acesa. O brilho de seu quarto era como uma vela colocada no meio de uma palco vazio e sem luz. Uma pequena chama lutando para prevalecer em seu calor. O Andarilho imaginava-a sentada em sua cama, com os olhos perdidos pela paredes, as mãos alisando seus longos cabelos negros e seus pensamentos ocupados com um previsível futuro atrás de um fogão, cuidando de crianças barulhentas e começando a engordar. E o pior de tudo era que ele não podia fazer nada para impedir esse destino ultrajante. Se fosse fingir ser um fã cabeludo de Kurt Cobain ou qualquer outro tipo de homem e se aproximar dela, algum dia a situação se complicaria e ela desconfiaria do fato de não poderem se encontrar ao dia. Se ele a matasse para que ela não vivesse a humilhação de se tornar uma mulher subjugada a trabalhar em casa e não pensar em mais nada, estaria sendo egoísta, porque faria sua vontade se levantar sobre ela. Não havia o que fazer. O Andarilho era um fraco, carregava uma cruz pesada, ela era uma bela adormecida, não carregava nenhum peso nas costas, mas não sabia como evitar todo o peso do mundo que estava a caminho.
As trevas eram as únicas coisas entre os dois.
Esperou ali até a luz se apagar. Então, como uma despedida, pegou o resto do cigarro que estava no asfalto e afogou a brasa na pele decrépita de sua mão. A queixa pela queimadura era mil vezes menor que a dor do açoite de sua maldição, cuja moléstia infecta prolongava sua brutalidade durante a existência do amaldiçoado. Todos os caminhos levavam a apenas um final: a auto-extinção. Enquanto andava, pensou nos eventos que o decorrer de sua imortalidade tinha para lhe oferecer. Um coquetel escarlate em um orfanato? Não, o sangue de crianças era-lhe ralo e fraco, como leite aguado para os mortais. Uma ocupação como assassino serial? Também não. Esse clichê de vilão estereotipado não agradava seu cardápio. Então, quem sabe um serviço como combatente do crime? Muito menos. O arquétipo de herói mascarado era uma faca de dois gumes: trazia a fama e o anseio das pessoas pela descoberta de quem se encontrava sob a máscara. Por baixo do pano. Mares nunca dantes navegados para eles. Abismos sem fundo.
Abismos.
O Andarilho começou a se lembrar dos ensinamentos de seu criador, o vampiro que bebeu sua vida até a última gota, concedendo-lhe em troca um gole de eternidade. Seu senhor falava muito sobre olhar através do espelho de sua alma e tentar tocá-la com seus dedos impuros. Ele dizia que, se banhasse seu corpo em tal fonte, renovaria sua natureza e alcançaria um novo nível de compreensão das coisas ao seu redor. Porém, se fitasse essa alma, essa fonte, esse espelho por muito tempo, tais idéias se tornariam poços sem fundo. Abismos que poderiam olhar de volta para o observador, e tragá-lo para o nada.
Se estivesse vivo, o Andarilho sentiria neste momento um calafrio subindo pela sua espinha, até o pescoço. Entretanto, não estava disposto a sentir mais nada esta noite. Nada de pavor, nem ódio e nem fome – Aliás, isso era algo com que ele não precisava se preocupar tão cedo, pois havia se servido de uma meia dúzia de ratos e de um infeliz bêbado vadio na véspera. Encontrava-se, então, deveras satisfeito.
Resolveu caminhar sem rumo pelas ruas. Por alguns instantes, tencionava desanuviar sua consciência, que, por sua vez, estava saturada de pesos auto-impostos. Talvez conseguisse um pouco de paz vagando pelas planícies asfaltadas daquela selva de concreto cinza-sepulcro.
Ao contornar um edifício, ele divisou uma guarita, de onde ruminava um brilho azul típico de televisor. O espectador, um guarda noturno cuja idade beirava os cinqüenta, espantava o sono com uma xícara de café, enquanto assistia ao noticiário. Passando por ele, o Andarilho pôde entreouvir uma notícia importante, apesar de seu desinteresse ostensivo: assassinatos estranhos estavam ocorrendo na cidade. Todas as vítimas eram mulheres jovens, de aproximadamente vinte anos de idade. Os corpos apresentavam lesões por esmagamento no crânio, suas roupas e pertences estavam intactos. Duas evidências em comum acompanhavam todos os cadáveres: uma vela e uma citação do Novo Testamento, Mateus 25:13. A perícia observou que os crimes eram perpetrados somente à noite. Não havia suspeitos. Apenas vítimas.
A reportagem chegou aos tímpanos rançosos do Andarilho como um grito qualquer oriundo das profundezas da cidade, algo que escutamos como uma linha cruzada assim que colocamos o telefone próximo ao ouvido, e que dispersamos com um toque no gancho. Algo supérfluo, banal, apenas mais um espinho no caule da rosa.
O quê fazer com essas chagas? O quê há para remediá-las? Nada. Cicatrizes são eternas. O mal é necessário. Não podemos evitar que as rosas tenham espinhos: são sua única opção de defesa. Uma rosa, uma rubra coroa no topo da torre farpada, protege seu tesouro sangrando a mão de seu usurpador, e o vermelho do sangue é uma advertência para manter-se longe do vermelho da flor.
A cidade é a rosa. Suas vítimas são o sangue. Aqueles que buscam a perfeição da convivência pacífica de indivíduos civilizados dentro dos limites de um complexo urbano, muitas vezes recebem, ao contrário, uma geração inquietante de monstros (espinhos) causadores de hemorragias. Esses seres existem para alertar que a conquista da perfeição (rosa) não é possível com a exclusão das lágrimas e do sangue. É preciso carregar a cruz pelo caminho árduo, para apreciar o copo d’água em seu fim.
E todas essas coisas deixavam pegadas de seu tráfego na mente do Andarilho da Noite, enquanto o mundo ao redor girava em sua indiferença centrífuga. E a cidade e as trevas jaziam como cadáveres, e as ruas e avenidas deixavam fluir sua corrente de motores encouraçados e velozes. E, assim, o Andarilho deixou-se levar pela noite.

Padre Teófilo sempre defendeu sua abordagem direta para a pregação da palavra do Senhor. Ele realizava missas com a mesma freqüência e aprumo que os outros padres, batizava bebês com semelhante atenção, tocava o sino da catedral com clássica cerimônia.     Mas, no tocante ao pastoreio das ovelhas, ele era um padre desigual.
Cada parábola, cada versículo, cada palavra do Velho e do Novo Testamento deveriam ser gravadas n’alma dos fariseus, pois eles não eram capazes de aprender em toda a sua loucura. De suas bocas só brotavam estultícias, de seus corações apenas iniqüidade. Ah, ele sabia o que eles guardavam atrás de sua humilde aparência. Seus pecados se escondiam bem lá no fundo do poço, entulhados e longe dos olhos de qualquer observador. Ali estavam Sodoma e Gomorra, ali estava Herodes, ali estava Judas, o traidor. Os detritos dos ímpios e todo seu maldito lucro. Eles negavam qualquer repreensão; seus pés apressavam-se para o mal, suas línguas semeavam o escárnio, suas mãos ajuntavam o que eles mesmos não haviam colhido. E depois de cultivarem toda essa imundície, vestiam o manto da penitência e apareciam nas missas de Domingo, ostentando suas cruzes como mártires. Todos os Domingos eram iguais: os hipócritas surgiam como abutres, cantavam alguns hinos, entoavam uns poucos louvores e voltavam para suas casas como inocentes. Então, durante a semana que se seguia, praticavam mais pecados, mais escárnios, mais estultícias, certos de que no Domingo suas faltas seriam perdoadas, fazendo-os inocentes novamente até a próxima missa.
Mas isso estava com os dias contados. A graça do Senhor havia lhe concedido a autoridade de mudar as coisas. Teófilo sempre se lembraria do Sinal que lhe foi dado: a noite no confessionário, em que estava apenas fazendo algumas orações quando surgiu aquela voz. A princípio, pensou que fosse mais uma alma hipócrita desamparada, mas a verdade se mostrou inequivocamente divina. Era o anjo do Senhor, que havia descido à Terra justamente para alertá-lo de sua missão. Suas palavras sagradas penetraram o coração de Teófilo de tal modo que, nem se o desejasse, poderia ignorá-las. Sua culpa e seus pecados seriam redimidos se fizesse a vontade do Altíssimo, era o que a voz lhe dizia. Teófilo estava tão grato que seu espírito se enchia de pleno gozo. Estava pronto para atender a vontade de Deus.
Primeiro vieram os adúlteros. Ele os ouvia confessarem suas abominações e, quando iam embora, certos de que estavam livres para pecar novamente, Teófilo seguia-os para resgatar suas almas pessoalmente. Em seguida, foi a vez dos falsos profetas, que vendiam a fé para os simples na promessa de um lugar no reino de Deus. Teófilo saldava suas dívidas a ferro e fogo. Depois, vieram os corruptos, assassinos, ladrões e mentirosos. Todos tiveram o mesmo fim.
Então, eles começaram a ter medo. Suas vidas pecaminosas não aparentavam mais a segurança de antes. Roubar, mentir, trair – tudo isso era perigoso. Eles temiam o ferro, o fogo e a fúria divina. Instintivamente, suas almas sujas temiam a punição e eles não sabiam por quê. A catedral passou a ser visitada com mais freqüência, os hinos eram cantados com maior fulgor e os falsos inocentes se tornaram assumidos pecadores.
A vontade de Deus estava sendo atendida. Mas Teófilo ainda não se dava por satisfeito. Seus pecados não eram mais tão óbvios. Era preciso reunir muita persistência e bom siso na busca dos males, pois de agora em diante tudo seria mais difícil. Os lobos tinham conhecimento de que o pastor espreitava, e poderiam aguardar quanto tempo fosse preciso para cravarem suas presas entre o rebanho e se chafurdarem no sangue inocente. Assim que tentassem, porém, o pastor estaria lá para escorraçá-los. Era uma questão de tempo, e o padre tinha ao seu lado a graça divina.
Um jovem rapaz vestindo jeans e flanela caminhava estoicamente pelas ruas da cidade anônima. Seus cabelos claros roçavam no rosto como uma cortina. Seus passos oscilavam, como se andasse com o impulso do peso da queda de seus ombros. Era uma figura quase bruxuleante, algo que se vê com o canto dos olhos e admite-se que na verdade não está lá.         Era o andarilho, e a noite era sua senda.
Andou a noite inteira. Não se lembrava de ter passado antes tanto tempo sem fazer nada além de andar. Na verdade, sabia muito bem o motivo de tal errância. Sua vida mortal, sua rotina precisa, a prova da existência de sua pessoa, haviam esvanecido e se tornado tão insignificantes que se afastaram da esfera de seu controle; não lhe pertenciam mais. Antes era uma pessoa real. Depois de nascer para as sombras, entretanto, não passava de um arremedo de criatura de terror. Fixando solidamente o chão sujo, tentava descobrir se sua mortalidade perdida era leve ou pesada em comparação à sua condição atual. Na época em que podia transitar sob o sol, tinha muitas obrigações e prazos a cumprir. Vivia para o trabalho, sem mais pretensões. Sim, era certo afirmar que essa vida não poderia ser considerada leve. Mas, o quê dizer sobre ser um vampiro? Sem necessidade de prazos ou obrigações, apenas o sangue importava. O licor escarlate sempre estaria presente nas veias de algum transeunte noturno. Ninguém precisava saber que existia; ao Andarilho bastava simplesmente ocultar-se na escuridão. Então, ser um vampiro trazia-lhe a leveza idílica dos romances? Será que sentia-se o mártir purificado pela sua condenação eterna?
Em parte, compreendia o hábito inconsciente de caminhar sem rumo. Andar se tornara um bom meio de ficar bem longe de tudo. Bastava colocar-se em marcha e contemplar o horizonte se aproximando – logo sua perturbação ficaria para trás.
Mais alguns passos e poderia descansar. Seu refúgio aninhava-se no esgoto bem abaixo da catedral. A igreja era a encarnação da opulência eclesiástica, um monumento gótico abençoado representando o ápice da arquitetura e do catolicismo. O leito subterrâneo era um buraco insuflado do que havia de mais fétido no lixo urbano, um verdadeiro sulco nas entranhas da cidade. Acima, o Paraíso. Abaixo, o Purgatório. Entre os dois, havia apenas o chão como limite.
O Andarilho chegou à Catedral e se dirigiu para a rua dos fundos do imóvel. Saindo de uma das portas laterais da igreja, um padre surgiu, reticente. Sua presença não foi e não seria notada pelo Andarilho, de acordo com sua atual isenção da realidade. O sacerdote, por sua vez, esquadrinhou detalhadamente o aspecto do jovem desleixado que passeava por ali. Seu andar, sua postura, suas roupas e sua feição eram analisados e, em seguida, um de cada vez, reprovados tacitamente. Aos olhos do padre, era mais uma ovelha desgarrada que merecia o sacrifício.
O jovem passou pelo clérigo como a um objeto e dobrou a esquina, sumindo de vista. Atrás da igreja, abaixou-se e levantou a tampa de um bueiro furtivamente. Na profundidade obscura do esgoto ele mergulhou, deixando cair sua máscara juvenil e assumindo a verdade infernal de sua face real. Com todo o mundo suspenso acima, o Andarilho se recolheu à beira da manhã em seu esquife imergente.
Na superfície, um padre rogava pelas almas perdidas.

Havia uma estrada. Todos estavam nela, caminhando sob o sol árido. Cada pessoa carregava uma cruz, cada uma delas possuía um peso distinto. Os lamentos da jornada eram variáveis, mas a trilha era a mesma. Também havia dificuldades. O asfalto quente, o ar seco, o cansaço, a sede, a fome e a distância do fim estavam lá para consumir a determinação dos cruzadores. Mas eles deveriam andar. Se quisessem viver, se pretendessem existir, tinham o dever de andar. Sem cruz, não havia peso. Sem peso, não havia valor. Sem valor, não havia nada.
O Andarilho também estava lá. Tinha seu fardo, que parecia tão pesado quanto os outros. E estava sujeito aos mesmos obstáculos pelos quais todos passavam. Sangrava e sofria como eles; sua força quase que chegava à exaustão. Seus pés buscavam o solo como se estivesse numa corda bamba. Seu corpo curvado para a frente era como uma árvore açoitada por um vendaval devastador. Mas, como todos naquela estrada, permanecia marchando em frente, sem desvios.
Num certo ponto do caminho, as pessoas chegavam a uma colina. Era um terreno descampado, composto por uma terra cinzenta. Nele, todos pregavam-se a suas cruzes e a fincavam na terra, sendo auxiliados por seus companheiros de jornada. A crucificação não era realizada com amargura ou queixume; antes de tudo consistia de uma celebração, pois representava a cessão do martírio, da caminhada, do fardo. Dessa forma, a cruz se tornava a carregadora, e o mártir, o peso. Essa troca de pesos era o que nutria a determinação dos transeuntes daquela estrada.
A colina estendia-se à frente do Andarilho, coberta de cruzes e crucificados. Havia muito movimento no local. Todos desejavam sua própria crucificação, e ninguém pretendia ficar de fora.
Um homem se aproximou do Andarilho e pediu ajuda para se prender à cruz. Cordialmente, o Andarilho pegou um martelo e alguns pregos que estavam largados no chão e, com uma reverência, fincou as mãos e os pés do homem, que respondeu ao ato com um breve ranger de dentes. Em seguida, o Andarilho ergueu a cruz e o crucificado, e firmou forçosamente a lenha no solo. Ao término do serviço, os olhos do homem mantiveram-se inertes na direção do horizonte, e não se ouviu nenhuma palavra ou soluço de seus lábios novamente.
O Andarilho resolveu solicitar sua vez. Percorreu os arredores com os olhos, mas só enxergou crucificados. Estava sozinho; não era possível crucificar-se sem auxílio. Não havia mais ninguém para trocar o peso pela leveza, todos tiveram sua dádiva. E ao Andarilho foi negado esse galardão.
Mas ele havia carregado aquela penitência por sobre toda a vastidão da estrada! Teve os mesmos suplícios que todos tiveram, verteu o mesmo suor, o mesmo sangue, e, ainda assim, continuou andando! Não era ele tão digno do desenfardo quanto os outros? Será que sua cruz não era pesada o bastante para ser considerada real? Será que esqueceram dele porque, na verdade, não existia? Será que ele se enganara esse tempo todo, aguardando algo que não seria concedido a um ser ausente?
Abandonado no fim da estrada, o mártir caiu sobre seu fardo e pôs-se a gritar desesperançosamente.

Recolhido como um feto em seu ninho subterrâneo, o Andarilho despertou.
Sim, foi um pesadelo. As trevas ao seu redor traziam-no para a lucidez com tanta eficácia quanto uma lâmina em seu pulso. E, por um breve instante, a escuridão subterrânea se tornou mais acolhedora que a nebulosidade de seu sonho ruim.
Tentando se concentrar no mundo desperto, ele levantou-se e, levando suas mãos à cabeça, pressionou sua face, como um ator que faz menção de retirar a maquiagem. Era inútil. Quando dava-se conta da insanidade do ato, do inescapável de sua sina, largava os braços e dirigia-se para a superfície. A cena repetia-se noite após noite, se tornando cada vez mais insustentável, cada vez mais alienante. Usando o peso desse fato como impulso, ele saíra dos esgotos, como um demônio rastejando das profundezas do inferno para coletar almas pecadoras.
Era uma noite de Sábado. Uma noite perigosa, pois todos os desejos reprimidos durante a labuta semanal libertavam-se nela. As ruas tornavam-se selvagens, e os animais que as freqüentavam, ansiavam por carne.
Ele rogaria pela moça. Acompanharia seus passos, seus gestos, sua preciosidade. Ela estaria a salvo com ele por perto. Nada neste mundo faria nenhum mal contra ela. Nada.
Passando pela igreja, ele não notou que a missa já havia terminado, e que, por sua vez, as horas haviam passado sem seu escrutínio. Alheio a isso, prosseguiu a caminhada.
Ao chegar à casa de sua musa, desconfiou da quietude da residência. Assim que ela resolvia sair com as amigas, uma distinta e suave balbúrdia perambulava dentro do lugar, atribuindo uma feminilidade juvenil àquela rua de árvores, trevas e pessoas idosas. Mas agora nem um gracejo soava. Tenso, o Andarilho procurou um meio de saber a hora daquele momento. Avistou um carro estacionado na esquina, e aproximou-se para verificar se havia algum relógio em seu painel. Ao descobrir os ponteiros dos minutos e das horas, surpreendeu-se com os números que ambos indicavam: vinte e três e trinta. Sobressaltado, ele contraiu os músculos das mãos e pôs-se a correr. Havia deixado o tempo escorrer entre seus dedos e ausentou-se da guarda de sua estimada jóia. Neste momento ela estava sujeita à noite, e contava apenas com a sorte.
Assumindo a aparência comum de um senhor de meia-idade, ele pensou nos lugares que ela visitara, e arriscou o mais movimentado como primeira hipótese. Deslocou-se com tenacidade, e, como não fazia há incontáveis anos, murmurou um pedaço de uma prece que aprendera na infância. E como não acontecia há muitos anos, teve fé em sua súplica.

Teófilo estava seguindo-os havia alguns minutos. Sua mão esquerda segurava firmemente uma bolsa de couro marrom. O jovem casal percorria as calçadas sem se dar conta do lugar onde se encontrava. Andavam abraçados, cambaleantes pelo efeito do álcool, estendendo uma conversa sem nenhum sentido, mas que poderia sugerir algo se o ouvinte também fosse jovem. O padre ignorava o motivo do diálogo; isso constituía numa coisa desprezível para alguém com uma missão divina a cumprir. Afinal, era a vontade de Deus que estava em jogo.
A moça era uma das cinco virgens loucas da parábola de Cristo no evangelho segundo Mateus. Atualmente, porém, haviam muito mais do que apenas cinco loucas. Elas esperavam pelo esposo sem nenhum azeite em suas lâmpadas, e, como não dispunham de luz, perdiam-se nas veredas do desvario. Rejeitavam a repreensão, aborreciam a sensatez, apartavam de todo conselho. Essa loucura precisava acabar, e nada como algumas punições exemplares para refrear a estultícia.
Teófilo esperou que os dois alcançassem uma parte obscura da cidade; o que não demorou muito, a julgar pelo passeio aleatório que eles realizavam. Então, quando um beco se alinhou na direção deles, o padre retirou um pesado castiçal de bronze de sua bolsa e, num gesto rápido e espantosamente forte, atingiu-o na cabeça do rapaz. O moço, em resposta, estremeceu, deixou escapar um gemido baixo e caiu de bruços, o sangue a escorrer-lhe pelo alto do crânio. Ela se assustou assim que ouviu o som surdo da fratura, e se afastou para dentro do beco, fitando com olhos vacilantes o corpo de seu acompanhante. O padre, com postura firme, proclamou, em tom profético:
– “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir.”

Em frente à casa noturna mais freqüentada da cidade, o Andarilho redefinia sua busca. Ele havia vasculhado o lugar de ponta a ponta, trajando um aspecto de um playboy esnobe e arredio. Entretanto, não a encontrara. O desespero acumulava-se em sua mente.
Decidiu procurar por uma das amigas da moça. Quase instantaneamente, avistou uma garota de cabelos curtos e claros, que possuía intimidade com ela. Valendo-se da máscara de burguês juvenil galante, ele aproximou-se da garota e perguntou insidiosamente por sua amiga. Sem hesitar, e com uma certa condescendência, ela mencionou os arredores como possíveis lugares para encontrá-la, pois ela estava acompanhada. Irritado, o Andarilho obrigou-a a dizer exatamente para onde ela havia seguido. Perplexa, a garota apontou para uma rua estreita e vazia. Sem agradecer, ele apressou-se na busca.
Após cinco minutos de corrida incessante, o Andarilho percebeu um corpo caído na calçada, logo na entrada de um beco. Deteu-se por um segundo, e o analisou. O perfume do sangue acariciava-lhe o faro, mas ele controlou-se. Tentou imaginar o que sucedia ao cadáver, quando ouviu o ruído de uma lata de lixo rolando no chão, vindo do fundo do beco. Em seguida, ouviu-se um sussurro masculino e um lamento que parecia ter vindo de uma jovem mulher.
Tudo se encaixou. A busca terminara ali. Sua jóia estava exposta a um grande mal.
Ele entrou no beco a tempo de ver o padre erguer o castiçal na direção da moça. Teófilo preparou-se para golpeá-la, mas algo segurou seu punho com uma força terrível. Antes de esboçar um grito, porém, o padre sentiu uma ligeira e profunda perfuração em seu pescoço, seguida de um fluxo extasiante e amortecedor. Algo estava retirando o que corria em suas veias para se alimentar. Tentou mover-se, urrar e pensar, mas todos, um de cada vez, eram-lhe confiscados como objetos de um criminoso. Em dez segundos, sentiu seu corpo esvaziar, e tudo ficava escuro para os olhos e mudo para os ouvidos. Sem vida para mover um dedo sequer, padre Teófilo caiu, com o último pensamento de que sua missão havia falhado.
Com o agressor de sua musa a seus pés, o Andarilho observou-a frente a frente, pela primeira vez: ela estava sentada no solo imundo do beco, com as costas apoiadas na parede, o corpo num ângulo inclinado para trás, como se estivesse recuando. Seus lábios trêmulos não pretendiam nada, seus olhos negros fitavam a face de seu salvador. Estava em estado de choque.
O silêncio dominava entre os dois. Ambos não atreviam dizer uma letra, com receio de que o ambiente explodisse com a fagulha. Passados quatro minutos, o Andarilho pôs-se a falar:
– Não se preocupe. Este animal não vai te machucar agora. Ele está bem preso dentro de mim.
Ela respirou em longos suspiros.
– Eu estava andando pelo jardim anônimo, quando passei pelo seu pomar. Observei as frutas da árvore com desamparo, e escolhi você. Mas não pude alcançá-la. Era além do meu toque. Deveria escalar até o topo e suplicar-te, mas não o fiz. Tive medo de cair. Você não estava destinada a mim.
Os suspiros tornaram-se soluços e, com as trevas aumentando o abismo entre os dois, a moça chorou ruidosamente. Chorou em tamanho desespero que o Andarilho titubeou, e hesitou. Ali estava sua fonte da juventude. A ponte que atravessava seu precipício. O prazer que aliviava sua dor. A crucificação. Era tudo isso, e não era nada, no mesmo instante. Pois os dois se encontravam tão distantes que suas vozes não se alcançavam, nem os ecos das mesmas, porque essas repercussões sonoras vagavam em caminhos diferentes, até se perderem.
A taça fora sorvida. O fim do caminho chegara. A cruz clamava pela terra.
Mas o Andarilho permanecia sozinho.
O pranto da moça acordou as pessoas daquele local. Logo os moradores chamaram a polícia, que fez milhares de perguntas, e acabou indo embora, arquivando o caso, e tomando como assassino das garotas o padre Teófilo, por excesso de evidências. A cidade anônima ficou mais leve com a notícia do fim da onda de assassinatos em série, e as pessoas que temiam o assassino podiam parar de frequentar a igreja sem remorsos. A moça foi levada para casa, intocada, e algum peso foi acrescentado à sua cruz. Quanto ao Andarilho, sua sina continua sendo deixar-se levar pela noite, e desde que descobriu-se abandonado na eternidade, indaga-se se já não seria a hora de crucificar-se sozinho. Enquanto a embriaguez de sua fraqueza não cessa, não lhe é possível sair de seu leito subterrâneo para entregar-se à luz solar. Mas ele não tem pressa. O sol há de nascer todos os dias.

Rodrigo da Silva

Sobre Rodrigo Bazílio

Apenas um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio, com o hábito quase vicioso de aliviar o estresse com jogos eletrônicos, música, leitura, RPGs e com a arte de pintar miniaturas. Ver todos os artigos de Rodrigo Bazílio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

The Truth's For Sale

RPG, Literatura (de segunda) e Escapismo

Oblivion RolePlaying Group

Grupo de RPG Ribeirão Pretano (Storyteller, d20)

4cantosdomundo

Fatos e fotos de um casal apaixonado por viagens

Deu Branco!

Um pouco de tudo... De tudo um pouco... Embarque logo pois o Gerador de Improbabilidades Infinitas já foi acionado!

Cooltural

Literatura, cinema e afins!

ZUADA!

Muita Nerdice por Nada

palavrasonolenta

Palavras escritas enquanto o sono não vem ou em decorrência dele.

Além dos muros

Escola Benedito Cláudio da Silva por uma aprendizagem inclusiva

Além da Imaginação

Ficção Científica | Fantasia | Role Playing Games

Xanafalgue

This WordPress.com site is the cat’s pajamas

Batman Guide

Guia de leitura para entender o Homem-Morcego!

Mundos Colidem

RPGs, Boardgames, Cinema, Quadrinhos, Bobagens

Anime Portfolio

O ogro azul dos fãs de anime e mangá...

The RPG Athenaeum

A repository of Dungeon Mastering commentary, suggestions and resources

.ShismeniaOliveira.

Notícias,críticas,idéias.

Deixe escapar a emoção

Fabiana Oliveira

CADÊ MEU WHISKEY?

Um blog pra quem curte boa música e outras coisas...

RPGPlug

Plugue-se no RPG

%d blogueiros gostam disto: