A Maldição de Deckium

(Observação: eu escrevi este “conto” por ocasião do final trágico de uma aventura que conduzi para um amigo que queria aprender a jogar RPG. Isso foi em 2012, o sistema foi o Dungeoneer – do Aventuras Fantásticas – e a aventura que escolhi foi “O Feiticeiro da Montanha de Fogo”, famoso livro-jogo que usei como base. Meu amigo fez um guerreiro típico das histórias de fantasia medieval, chamado Deckium, e até que se saiu bem enquanto explorava a masmorra de Zagor, o proprietário do lugar. Porém, Deckium foi derrotado pelo penúltimo oponente – o dragão de estimação do mago. A título de vingança pela audácia de invadir a masmorra, e com a intenção de eternizar o sofrimento do guerreiro, Zagor usou um poderoso feitiço e transformou Deckium em um esqueleto mantendo a mente que tinha em vida mas submisso às suas ordens, situação que quis narrar de forma um tanto mais elaborada via Skype, para meu amigo, depois que chegou em casa com a sensação de que sua primeira aventura havia acabado. O resultado foi uma homenagem a um cavaleiro do antigo desenho Caverna do Dragão – episódio 9, “A procura do Esqueleto Guerreiro”)

Deckium sente-se estranho – uma luz, em meio à uma treva profunda, o conclama para seguir. Uma luz afetuosa, quase familiar, prometendo um repouso infinito. Deckium tenta avançar em direção ao brilho, mas suas pernas não se movem. Seu corpo o trai, letárgico, recusando-se a obedecer.

É como um sonho louco – sente-se lúcido demais, porém ainda sonhando, dormindo, deitado sobre algo frio… como uma lápide. A Luz se afasta. Deckium tenta pegá-la com as mãos, mas isso só faz com que a luminosidade recue.

Tudo é treva. Uma treva intangível, entretanto, pesada como uma mortalha.

A treva começa a se dissipar, dando lugar a uma cortina escarlate que cobre-lhe a visão onírica. A cortina rubra começa a se abrir horizontalmente, revelando uma parca iluminação, quase que engolida por outra treva – a treva de uma caverna!

Dor – é a primeira sensação. Uma dor em cada veia, em cada nervo, em cada centímetro de sua pele. Um formigamento implacável toma conta de seus músculos, que parecem estranhos – rígidos, inflexíveis, descoordenados.

Deckium abre seus olhos, e deseja não ter visão, pela primeira vez.

De olhos esbugalhados, o guerreiro observa o teto do que parece ser uma masmorra – ou uma caverna. Ele reconhece o lugar. Será aquela masmorra? Será o túnel abaixo da Montanha de Fogo?

Tenta mover seus dedos, e, mais uma vez, amaldiçoa seus sentidos – uma terrível agonia alastra-se. É como se seu corpo estivesse queimando. Mas não há fogo.

Com um sobressalto, Deckium inclina seu tronco e fica sentado onde está. Agora vê que é um tipo de altar, com detalhes tenebrosos. Alguém está com ele, mas no meio de tanta agonia, é impossível discernir.

Suas mãos agem de modo inacreditável: com dedos firmes e ágeis, começa a ARRANCAR o que o incomoda em seu corpo – a carne queimada pelas labaredas do dragão.

Rosto, pescoço, bíceps, tríceps, orelhas, barriga, espáduas, glúteos… tudo o que lhe dá agonia é implacavelmente removido de seu corpo com as poderosas garras que suas mãos se tornaram.

Uma risada (será uma risada?) parece vir de algum lugar perto.

Deckium não para. As mãos-garras trabalham, destacando sua carne como uma cobra tenta trocar de pele, agonizada pelo comichão.

Em um tempo que se estende e assemelha-se a horas, Deckium prossegue. E para. Para, finalmente. Cheiro de carne chamuscada. Pedaços de suas vestes e armadura. Cabelos e pelos. Tudo espalhado ao seu redor.

Suas mãos? Garras, com belos ossos brancos à mostra. Pernas? Um varão de ossos usando botas. Tronco? Braços? Vértebras, costelas, juntas… a brancura de ossos, bem visíveis.

“O QUE ESTÁ ACONTECENDO, DEUSES?” – Deckium grita.

“Olhe-se no espelho à sua esquerda.” – responde uma voz calma e sarcástica.

Deckium vira-se para onde a voz ordenou. E amaldiçoa sua visão uma segunda vez. Talvez, a última.

FIM (por enquanto)

Rodrigo da Silva (vulgo Rodrigo Bazílio)

Sobre Rodrigo Bazílio

Apenas um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio, com o hábito quase vicioso de aliviar o estresse com jogos eletrônicos, música, leitura, RPGs e com a arte de pintar miniaturas. Ver todos os artigos de Rodrigo Bazílio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

The Truth's For Sale

RPG, Literatura (de segunda) e Escapismo

Oblivion RolePlaying Group

Grupo de RPG Ribeirão Pretano (Storyteller, d20)

4cantosdomundo

Fatos e fotos de um casal apaixonado por viagens

Deu Branco!

Um pouco de tudo... De tudo um pouco... Embarque logo pois o Gerador de Improbabilidades Infinitas já foi acionado!

Cooltural

Literatura, cinema e afins!

ZUADA!

Muita Nerdice por Nada

palavrasonolenta

Palavras escritas enquanto o sono não vem ou em decorrência dele.

Além dos muros

Escola Benedito Cláudio da Silva por uma aprendizagem inclusiva

Além da Imaginação

Ficção Científica | Fantasia | Role Playing Games

Xanafalgue

This WordPress.com site is the cat’s pajamas

Batman Guide

Guia de leitura para entender o Homem-Morcego!

Mundos Colidem

RPGs, Boardgames, Cinema, Quadrinhos, Bobagens

Anime Portfolio

O ogro azul dos fãs de anime e mangá...

The RPG Athenaeum

A repository of Dungeon Mastering commentary, suggestions and resources

.ShismeniaOliveira.

Notícias,críticas,idéias.

Deixe escapar a emoção

Fabiana Oliveira

CADÊ MEU WHISKEY?

Um blog pra quem curte boa música e outras coisas...

RPGPlug

Plugue-se no RPG

%d blogueiros gostam disto: