Para que serve a inovação do currículo escolar?

Depois de ler o seguinte artigo https://novaescola.org.br/conteudo/18295/a-finlandia-e-a-base-nacional-nao-servem-para-nada-diz-jose-pacheco e refletir um pouco, decidi escrever isto por ocasião de um trabalho pedagógico que me foi solicitado:

Pode-se iniciar um artigo sobre os questionamentos propostos por José Pacheco, no artigo acima, lançando mão de outros questionamentos:

– Por que existe evasão escolar no Brasil, em tal magnitude?
– Por que os índices oficiais no Brasil demonstram notas tão baixas em leitura e matemática?
– Por que acontecem tantos casos de indisciplina nas escolas públicas?
– Por que há tantos professores afastados da escola pública por depressão?
– Por que no Brasil a profissão de professor só atrai 2% dos jovens?

Podem existir inúmeras respostas (ou não) sobre tais questões, mas é urgente notar que as mudanças na BNCC e, por conseguinte, no material do estado de SP, são esforços para amenizar as consequências dos problemas citados. Se tais mudanças hão de realmente produzir resultados salutares, é o que todos os profissionais da educação gostariam de saber. No entanto, depois da leitura da reportagem do coordenador da célebre Escola da Ponte, da reflexão a partir de suas declarações polêmicas e da experiência acumulada em quase vinte anos de magistério, fica mais forte a noção de que devemos concordar com ele.

Principalmente com a ideia de que as “reformas curriculares” brasileiras são puramente semânticas. Isto é, são restritas ao texto escrito, não postas em prática. Basta lembrar de quantas vezes o governo estadual de SP alterou materiais pedagógicos de aplicação direta nas escolas, e de como o investimento foi pouco eficaz na tabulação dos índices via SARESP. Muda-se a forma, muda-se o conteúdo, mas não se muda o resultado. As práticas pedagógicas também não passam por grandes mudanças, embora que a partir de 2020 as aulas sejam transformadas significativamente na rede estadual paulista – mas, será possível melhorar resultados em larga escala simplesmente alterando a grade curricular, os horários das aulas e afirmando que é tudo parte de um programa de inovação?

A própria introdução dos portais e sites que veiculam o programa “Inova Escola” avisa aos incautos que “não há receitas mágicas” para transformar a escola para melhor. Não há fórmulas de como fazer uma escola evoluir como instituição que interfere na sociedade. Ainda que existissem fórmulas prontas, certas, ainda existiria o obstáculo de como aplicá-las em cada comunidade, para cada docente, para cada grupo de alunos. Isso sem pensar em todos os outros problemas que atuam diretamente em cada unidade escolar (evasão, indisciplina, absenteísmo docente…).

José Pacheco mencionou o exemplo da Finlândia. Lá, a educação foi responsável pela mudança do paradigma da nação como um todo – algo tão estupendo que pode humilhar o docente menos atento. E, na mesma entrevista, Pacheco afirmou que o exemplo da Finlândia é inútil – porque já está obsoleto, em se tratando das necessidades modernas dos alunos de cada canto do mundo. Um leitor incompetente (ou analfabeto funcional) entenderia o discurso como contraditório, paradoxal. E não concordaria depois que um leitor melhor explicasse.

O coordenador da Escola da Ponte tem sua razão: citou estudos sérios, segundo os quais a famigerada “lousa digital” já não está servindo bem ao propósito da educação. Citou que o uso do PowerPoint também não está mais sendo útil. Essa noção já vem sendo observada por muitos colegas inquietos: não poucas vezes, ouvi relatos de colegas, oriundos de escolas com lousas digitais, narrando casos de turmas inteiras totalmente desinteressadas pela aula, ainda que ministrada com auxílio dos computadores, dos slides, de recursos de áudio e vídeo. Eu mesmo vivenciei tal experiência: após alguns dias lecionando na sala de informática, usando recursos de multimídia, testemunhei alunos tentando dormir nos fundos da sala de informática, em visível desprezo à aula em desenvolvimento. O que está falhando – o professor? Os computadores? O Windows? O ar condicionado?

A Escola da Ponte pode servir como exemplo notável para aqueles que buscam respostas mais empíricas, considerando que lá os alunos são agrupados em estações, em imensas salas que dispensam as turmas e séries. Também certos instrumentos de avaliação e práticas foram profundamente modificados ou até banidos (prova de múltipla escolha, cópia de conteúdo da lousa…). Então, por que simplesmente não replicamos o que foi bem-sucedido em escolas como essa e abolimos pretensos discursos pró-inovação?

Há alguns anos, escrevi um artigo tentando refletir sobre essa questão. Levei em conta o século em que vivemos, a chamada “era digital”, e considerei as necessidades do mercado de trabalho. O esforço todo rendeu algo que pode ser lido aqui:

https://alforje.wordpress.com/2013/04/17/na-era-digital-qual-o-papel-da-escola-no-seculo-xxi-e-na-formacao-dos-alunos/

Talvez seria melhor finalizarmos este artigo (que não tem pretensão alguma de concluir o debate) com o seguinte questionamento: “e se José Pacheco estiver correto, o que faremos a seguir?”

Sobre Rodrigo Bazílio

Apenas um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio, com o hábito quase vicioso de aliviar o estresse com jogos eletrônicos, música, leitura, RPGs e com a arte de pintar miniaturas. Ver todos os artigos de Rodrigo Bazílio

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